Eron Villar. Luciano Félix.
Notas introdutórias: “Lendária” é um capítulo composto por 61 quadrinhos. Suas ilustrações são em tons preto e branco. É inspirado pela letra da música “Recife, Cidade Lendária” de Capiba, que versa sobre suas aventuras noturnas, amores e admiração pela Recife noturna. Em paralelo, o capítulo narra também as nuances de um sistema opressor e escravocrata da época do Brasil colônia que ainda deixa a mostra suas cicatrizes por entre as paisagens da cidade.
Página de título: Em um fundo preto com letras brancas se estende o título centralizado na página: Lendária. Eron Villar. Luciano Félix.
Folha de rosto: No canto superior esquerdo da página, uma ilustração em marca d’água na cor cinza de um cortejo de Maracatu em um pátio. Em branco, por cima da ilustração, um estandarte, uma máscara de festa e uma sombrinha de frevo. Dentre as figuras, algumas estrelinhas e notas musicais.
Eron Villar é Doutorando e Mestre em Estudos Literários (UFPE), dramaturgo, escritor, roteirista e pesquisador de histórias em quadrinhos. Homem negro, possui 28 anos de carreira artística. Escreveu dois livros de poesias e um de contos. Sua paixão absoluta são as histórias em quadrinhos, tendo escrito a série “A Noiva”, em parceria com o ilustrador Thony Silas; a HQ futurista “Reconnectors” e a série sci-fi “Cérebro”. Escreveu um dos roteiros e editou a HQ “Ô Josué – crônicas da fome”, indicada ao Prêmio HQMix 2024. Este ano ministrou em vários estados brasileiros oficinas sobre HQ e decolonialidade pelo projeto Arte da Palavra, do SESC Nacional. É professor convidado da pós-graduação do Cesar School.
Luciano Félix é formado em Licenciatura em Desenho e Plástica pela UFPE (2000), ganhou vários prêmios em salões de humor Brasil afora, a maioria na categoria Quadrinhos. Nesta categoria, colaborou para a Mad, participou do “MSP50” (comemoração dos 50 anos do Mauricio de Sousa), de “As Histórias do Recife Assombrado” e criou o personagem Wander/Batmorcego, assim como o selo Quadrel, pelo qual une quadrinhos com as rimas da literatura de cordel. Participou dos livros em quadrinhos “Nordeste, uma visão em quadrinhos da Civilização do Açúcar” (2022), “Ô Josué! - Crônicas da Fome” (2023) e “Mundurucu na Confederação do Equador” (2024).
Q1 - “Recife, década de 1970”.
Um homem caminha por dentro de uma feira. Seus trajes são típicos de um boêmio. Ele veste uma calça e blazer brancos. Por dentro do blazer, usa uma blusa social com golas extravagantes que está presa para dentro da calça. Usa também um cinto preto. Sobre a cabeça, um chapéu branco faz uma sombra sobre seu rosto e cobre seus olhos. Ele calça sapatos fechados e pretos. O homem caminha entre os feirantes e as bancas de frutas com as duas mãos no bolso. Alguns dos feirantes olham para ele. Sentando em uma calçada ao lado direito, um homem descalço e barbudo lê um poema.
Erickson Luna declama: Andar nas ruas faz-se em volta uma cidade pra que eu me sinta bem enfim nesta cidade há-se em mim um cidadão.
Q2- Paisagem panorâmica de uma praça. Um caminho calçado e arborizado contorna um lago. O reflexo das luzes de alguns postes, que iluminam a calçada, tocam suavemente a água lêntica do lago. Vitórias régia, plantas em forma de grandes pratos circulares se estendem pelo lago. Elas boiam sobre sua superfície. Algumas hastes das flores da planta com nome de moça emergem e suas pétalas brancas desabrocham como pontinhos de luz na paisagem. Apoiadas em algumas vitórias régia, no canto inferior direito da paisagem, estão grafadas as letras “L”, “E”, “N” e “D”. Nesse mesmo canto, o boêmio continua a caminhar.
Q3- Um jardim divide a calçada da praça em dois caminhos. Um poste baixo com duas lâmpadas está centralizado. Atrás dele, alguns arbustos do jardim formam um corredor. No canto direito, o boêmio continua a caminhar.
Q4- O boêmio segue caminhando por um caminho arborizado e com somente dois postes para iluminar. Vemos ele caminhar de costas. No canto esquerdo um soldado fardado prende uma outra pessoa.
Q5- O boêmio se senta em um banco por entre as árvores do parque.
Q6- . O boêmio caminha por uma calçada larga em cima de uma ponte. Ele apoia uma de suas mãos em um parapeito. O asfalto ao seu lado abre o tráfego para alguns carros e ônibus. Há alguns fuscas estacionados no canto. O centro é composto por muitos prédios que contornam a pista e estão logo à frente da ponte. Em um desses prédios há um letreiro grande que diz “Rolex”. No canto esquerdo do quadro seguem grafadas as letras “Á”, “R”, “I” e “A”. Roteiro: Eron Villar. Desenhos: Luciano Félix.
Q7- O boêmio avança pela cidade. Ele atravessa uma pista com as duas mãos no bolso. À sua frente se estendem duas ruas com muitos prédios e carros.
Q8-.O boêmio continua a caminhar pela cidade. A rua por onde ele passa agora é calçada com pedras. Dois edifícios altos contornam esta rua. À esquerda do homem há alguns carros e um ônibus.
Q9- O boêmio entra em um beco. Ele continua a caminhar com as duas mãos no bolso. Seu rosto ainda está coberto por uma sombra. O caminho de pedra por onde ele passa é iluminado apenas por um poste de luz, de tipo colonial, feito de madeira com detalhes entalhados e com uma pequena lâmpada dentro de um lustre. Ele é como uma redoma de vidro em formato quadricular com arestas de ferro.
Q10- O boêmio se aproxima de uma mesa com três cadeiras livres. Ele se senta em uma das cadeiras sozinho na mesa e acena para um garçom. Em seguida ele acende um cigarro para fumar, se recosta na cadeira e apoia um dos cotovelos à mesa. Vira a cabeça para o lado e fecha os olhos para assoprar uma densa nuvem de fumaça do seu trago. Agora a luz ilumina seu rosto. Ele tem um rosto fino e comprido. Seu nariz é pontiagudo e ele mantém um bigode fino e alguns cachos na costeleta na lateral de seu rosto.
Q11- Em um pátio, algumas mesas são espalhadas no meio da rua. Em algumas delas as pessoas estão tomando cerveja servida em garrafas. Um garçons passeia entre os clientes para servi-los. Um senhor com chapéu de cangaceiro passa por uma das mesas vendendo cordéis. Contornando o pátio estão algumas casinhas baixas, com as portas fechadas.
Q12- Um homem toca um violão por entre as mesas e canta: “Percorro bairros distantes sempre a escutar. Luanda, Luanda, onde está? É alma de preto a penar”. Há dois homens bêbados perto de uma das mesas. Um tenta ajudar o outro, que está caído com uma garrafa nas mãos, a se levantar. O boêmio ainda está sentado em uma mesa sozinho. Ele despeja parte do líquido de seu copo no chão. E diz:
Boêmio: Pro santo.
Q13- Uma mulher caminha pela orla de um porto. Ela é uma mulher preta, com cabelos crespos, pretos e curtos. Ela tem uma faixa na cabeça. Usa um brinco grande em formato de gota. Está vestida com um macacão estampado e um cinto largo na cintura. Ela usa uma bolsa de lado pendurada nos ombros. No fundo, há dois grandes navios de carga. Um está atracado próximo a orla e o outro navega pelo mar.
Q14- A mulher continua a caminhar pela orla.
Q15- A mulher segue seu caminho e olha em direção ao mar.
Q16- “Porto de Luanda, século XVI”.
Em um porto, uma fila de crianças com as mãos amarradas se estende em direção a um navio. Há outras muitas embarcações neste porto. Os meninos estão sem camisa e usam apenas um pano como roupa de baixo. As meninas usam um pano como vestido. Algumas crianças olham para baixo, tristes. Outras estão atentos à fila e observam o navio para onde estão sendo levadas. Um homem com um boné e farda guia a fila até o cais. Uma menina está no final da fila e aparece iluminada. Ela está cabisbaixa.
Q17- A fila anda.
Q18- A menina olha para trás e leva suas mãos em frente ao peito, apreensiva.
Q19- “Pernambuco, século XVII”. Por uma grande janela, vemos seis pessoas sentadas à mesa. São quatro homens e duas mulheres. Sobre a mesa, uma farta refeição está servida. Um homem corpulento ocupa a cadeira da ponta. Ele tem o rosto largo com uma mandíbula protuberante. É calvo e usa um bigode cheio. Ele segura uma coxa de frango nas mãos e ri.
Q20- Uma menina se aproxima do homem sentado na ponta da mesa. Ela é uma menina preta. Está usando um vestido longo e branco e turbante branco na cabeça. O homem desce a mão pela cintura da jovem por trás da mesa e aperta seu quadril.
Homem: Esta aqui é nossa menina Tereza, criada como uma filha, como se fosse da família. Está sempre disponível para os “serviços de casa”, cheirosa como uma flor, forte como uma mula.
Q21- Foco nos olhos de Tereza. Ela arqueia uma das sobrancelhas e olha para o homem.
Q22- Tereza está em seu quarto. Ela veste uma camisola. É um quarto pequeno, com apenas uma cama e um móvel com uma gaveta ao lado. Ela se agacha para acender uma vela.
Q23- Uma mão gorda surge por detrás da porta que está entreaberta. Tereza volta seu olhar
para a porta assustada.
Q24- Ela se joga contra a porta e a empurra com força. Mas o homem já está praticamente dentro do cômodo.
Q25- O homem agarra Tereza pela cintura. Ela tenta se desvencilhar.
Q26- Ele joga Tereza no chão e cai por cima dela. Tereza estica o braço para pegar a vela que está sobre o móvel.
Q27- Ela queima o rosto do homem.
Q28- Tereza tira uma faca que está na bainha da calça de seu agressor.
Q29- Ela aponta a faca em direção ao homem e lança um golpe, cortando-lhe um pedaço da orelha. O homem solta um grito.
Q30- Vista lateral de uma grande casa. É de noite. O céu exibe uma lua cheia e várias nuvens. Atrás da casa vários coqueiros compõem uma densa vegetação. Logo em frente há um pequeno casebre.
O homem grita: Peguem essa neguinha de merdaaaaaa.
Q31 a Q34- As luzes de dentro da casa começam a se acender e iluminar as janelas em sequência.
Q35- Três homens com candeeiros nas mãos adentram a vegetação à procura de alguém.
Q36- Tereza corre na direção contrária, vestindo apenas sua camisola.
Q37- De volta ao pátio, o boêmio continua sentado. Sobre sua mesa há várias garrafas de cerveja.
Q38- Em meio às pessoas, a mulher que estava caminhando pela orla do porto surge distante.
Q39- A mulher passa por entre as mesas.
Q40- Ela se aproxima. Mantém uma postura esguia com a cabeça ereta. Ela segura firme em uma das alças da bolsa que está pendurada no ombro.
Q41- A mulher passa pelo boêmio. Ele apenas a observa passar de soslaio.
Q42- Por dentro de uma mata, a menina Tereza corre descalça. Os homens correm em direção a ela. Dois dos capatazes apontam para Tereza. Eles estão acompanhados de alguns cães raivosos que rosnam ao farejar a garota. Tereza olha para trás, assustada.
Q43- Vista da entrada de um quilombo. O lugar é delimitado por cercas altas de toras de madeira. Dentro do quilombo há algumas cabanas feitas de palha. No canto direito do quilombo há um pequeno mirante. Na porta, estão dois homens pretos. Eles são altos e musculosos. Estão sem camisa e usam uma espécie de tanga na cintura. Seguram em mãos grandes lanças. Os homens observam Tereza sair por dentre alguns arbustos. Eles abrem as portas do quilombo e deixam a menina passar.
Q44- Tereza está deitada em uma esteira de palha. Ela está ferida. Sua camisola agora cobre apenas seu quadril. Um pano cobre seus olhos. Com ela há duas mulheres negras. Elas estão sentadas ao lado da esteira. Uma senhora, de cabelos brancos e cacheados, enfaixa um dos joelhos da garota. A outra mulher, mais jovem, segura um pano. Ao lado dela há uma bacia com água.
Q45- Tereza está em uma roda de capoeira. Ela joga com um outro homem. Tereza salta com uma das pernas esticadas deixando seus músculos evidentes. Na roda, há várias pessoas. Um dos homens toca um berimbau enquanto o outro um atabaque. Duas mulheres batem palmas e outros rapazes cantam.
Q46- Recortes de Tereza. Da esquerda para a direita, no primeiro recorte ela está lutando contra um outro homem preto. Ambos portam lanças. No segundo, ela corre ferozmente com outras pessoas. No terceiro, ela caça uma capivara.
Q47- Tereza está sentada em um trono. Ela usa uma coroa em sua cabeça. As demais pessoas do lugar se ajoelham em reverência.
Q48- O boêmio se debruça sobre a mesa para escrever em um bloco de notas. Ele continua fumando.
Q49- Destaque para o papel. Está escrito: Recife dos maracatus. Dos tempos distantes de Pedro Primeiro.
Q50- Um grande cortejo de Maracatu invade o pátio. À frente do grupo há uma mulher e um homem. Estão vestidos como um rei e uma rainha. Ambos usam coroas na cabeça. Logo atrás do casal, um conjunto musical de percussionistas embala a folia e notas musicais saltam por cima do cortejo. Alguns deles estão vestidos como escravos. O boêmio observa toda a cena sentado.
Q51- A mulher vestida de rainha dança rodando seu vestido. Ela é uma mulher negra de cabelos crespos e pretos. O rei, atrás dela, também dança. Ele segura uma espada. Notas musicais contornam a alegria do casal.
Q52- Um grupo de policiais surge no pátio. Os foliões, assustados, interrompem o festejo.
Policial: Vamos acabar com essa baderna ou vai todo mundo pro xilindró.
Q53- A rainha do cortejo se coloca frente a frente com o policial.
Rainha: Os senhores não podem nos expulsar assim. Estamos celebrando nossa fé na rua. Temos esse direito.
Policial: Quem diz aqui o que pode ou não pode sou eu que sou autoridade.
Q54- Destaque para a rainha, cara a cara com o policial. Ele franze o cenho.
Rainha: Daqui não saio …
Q55- Os outros policiais avançam para cima dos foliões com cassetetes em punho. Os foliões revidam. A rainha atinge em cheio a cabeça de um dos policiais. Os policiais fogem em debandada.
Q56- O grupo comemora a vitória. O boêmio observa de sua mesa.
Q57- Algumas pessoas andam pelo pátio.
Q58- A mesa antes ocupada pelo boêmio está vazia, com algumas garrafas por cima. O pátio se esvaziou.
Q59- Apenas alguns homens se encontram ainda no pátio, que se esvazia ainda mais. Um dos postes apaga sua luz.
Q60- Um segundo poste apaga a luz e não há mais ninguém no pátio.
Q61- O último poste apaga a luz. Notas musicais se misturam com as estrelas que iluminam o céu. Narrador: Que é feito dos teus lampiões, onde outrora os boêmios cantavam suas lindas canções.
Fim.