Fábio Paiva. Melisandret.
Notas Introdutórias
Madeira do Rosarinho é um capítulo composto por 41 quadrinhos em tons de preto e branco. Traz consigo a alegria do carnaval de Recife e seus respectivos personagens e cenários, que estão descritos em ordem de aparição:
Capiba: Ele é um senhor de pele clara, estatura mediana e pouco corpulento. Possui bigode volumoso branco, é calvo com cabelos brancos médios e lisos nas laterais. Seus olhos são pequenos e pouco amendoados, acompanhados de óculos de grau com armação retangular;
Estandarte do madeira do rosarinho: Estandarte em formato de brasão, com as iniciais “B,M,M,R” acompanhado de uma faixa superior com o nome “Madeira do Rosário” e uma faixa inferior com a data de fundação “04 de setembro 1926”;
Estandarte do Batutas de São José: Estandarte com uma colombina ao centro, seguido de duas pombas brancas, sendo uma à esquerda e outra à direita. Uma faixa superior com o nome “Batutas de São José” e uma faixa inferior com a data de fundação “05 de junho de 1932”;
Os três jurados: Três homens esbeltos de smoking preto com gravata borboleta. O homem da esquerda tem os cabelos lisos e curtos e longo bigode. O homem do centro é um pouco mais corpulento e usa cartola e o homem da direita possui cabelos lisos em estilo chanel.
Página de título: Fundo preto com ilustração de Capiba em contornos e traços em cinza claro.
Folha de rosto:
Descrição da imagem de fundo: Em traços finos pretos e preenchimento cinza, em marca d’água, Capiba dança em meio a multidão que compõe o Bloco Madeira do Rosarinho.
Fábio Paiva é professor da UFPE, pesquisador de quadrinhos e roteirista. Formado em Geografia e em Pedagogia, é Mestre e Doutor em Educação, criou o projeto EduQuadrinhos, que publicou “Identidade”, “Revolução Republicana”, “A Independência do Brasil em Quadrinhos” e participou de “Ô Josué! Crônicas da fome”, entre outros gibis. Também é autor dos livros teóricos “Educação e Violência nas HQs de Batman” e “Histórias em Quadrinhos na Educação”. É líder do grupo de pesquisa de Educação e Quadrinhos da UFPE/CNPQ e professor do PPGEdu/UFPE. Atualmente ocupa o cargo de Gerente de Projetos da Secretaria Executiva do Ministério da Educação.
Melisandret é ilustradora e apaixonada por gibis desde cedo. Produziu artes e tirinhas para projetos, como o “Portal do Bicentenário” e o “Eduquadrinhos”. Além do lado artístico, pesquisa a potencialidade dos quadrinhos para o ensino de História. Doutoranda em História pela UFPE, atualmente pesquisando a potencialidade dos quadrinhos no gênero de terror e a importância da discussão das emoções no ensino de História.
Q1- Narrador: Madeira que cupim não rói, o clássico frevo do Capiba, é um hino informal de Recife. Representa inconformismo com a injustiça.
Sobre festins e serpentinas está Capiba. Ele usa uma camisa social escura de manga longa por dentro da calça, com estampas floridas e desabotoada no peito. Sapatos brancos e calça escura boca de sino. Está pensativo, com uma das mãos apoiadas no queixo, enquanto a outra permanece no bolso dianteiro da calça.
Narrador: Mas o que teria acontecido no carnaval de 1963?
Q2- Narrador: Lourenço da Fonseca Barbosa, O Capiba, sempre foi brilhante. Aos 8 anos tocava trompa!
Capiba é um menino franzino careca, de camisa regata branca e short preto. Usa chinelo de dedos e em uma de suas canelas possui um curativo.
Narrador: Aos 20 anos foi zagueiro do Campinense da Paraíba.
As notas musicais se misturam com a multidão em uma arquibancada. Abaixo, no campo, Capiba está com o uniforme de listras horizontais do time campinense. Emenda um belo chute, deixando o adversário da camisa 2 incrédulo. O jovem Capiba é magro, esbelto, possui bigode fino e cabelos curtos pretos.
Q3- A bola ganha a altura dos fogos de artifício e deixa aos poucos a arquibancada. Da arquibancada o Velho Capiba grita.
Capiba: TRICOLOR!
Q4- Narrador: Em 1984 compôs “O mais querido”, música que viria a ser hino do Santa!
A arquibancada está repleta de torcedores uniformizados com camisas do Santa Cruz, que emocionados, bradam suas faixas e cantam. Capiba com os olhos marejados ergue um dos braços para o alto e brada.
Capiba: Mais essa vitória!
Q5- Capiba ergue os braços ao alto e brada.
Capiba: És o querido do povo! Querido da multidão!
Q6- Mas foi o carnaval que lhe rendeu os maiores sucessos!
No Clube das Pás, Capiba está sentado em uma mesa redonda com toalha de mesa branca e com um copo vazio. Ele é envolvido pelas notas da melodia que ecoam no salão e passam por dois casais que dançam. Uma das mulheres sussurra ao ouvido do parceiro. No palco ao fundo, o cantor de rosto corado e olhos fechados, canta com uma das mãos ao peito.
Cantor: Eu bem sabia…
Q7- Sorridente, Capiba observa tudo da mesa com um copo na mão.
Capiba: Desde 1934 tenho tido muita sorte… Desde 34 faço muito sucesso!
Q8- Narrador: Em 1963 o carnaval fervia em rivalidade.
Capiba acompanhado de dois foliões, curtem o carnaval de Recife debaixo de uma sacada de um casarão. Destaque para o dançarino de frevo com roupa de marinheiro e um guarda-chuvinha na mão, que salta abrindo um espacate no ar, o cartola sem dente, a passista que anda com o estandarte do Madeira do Rosarinho, a baiana, o malandro de chapéu de gafieira, o cangaceiro pernambucano, o silvio santos jovem, o cachorro palhaço, o máscara de urso bravo, as duas colombinas, o cachorro vestido de palhaço, entre outros…
Q9- Nas ruas do Recife passa o bloco dos Batutas de São José, com destaques para o chacrinha e uma vedete, um hippie com colar de paz e amor, um cartola que segura o estandarte do bloco, o chapéu de rabino, a rainha e o malandro que tira o chapéu, a carmem miranda e o marinheiro, a moça mascarada e o palhaço. Ao fundo em um palanque, garçom bigodudo serve taças para os três jurados que estão sentados.
Q10- Narrador: O carnaval do Recife sempre foi do povo! E sempre teve espaço para todos.
Capiba no meio da multidão, entre os integrantes do bloco Batutas de São José, encara os três jurados no palanque. Uma placa fixada ao lado esquerdo do palanque com os dizeres “Carnaval 1963. Frevo meu bem!”
Narrador: Mas em 63 a disputa era entre os batutas…
Q11- Narrador: E o madeira!
Sorridente e de costas para os jurados, Capiba se junta aos foliões do Madeira do Rosarinho.
Q12- Narrador: O Madeira era o bloco do Capiba!
Entre festins, confetes e serpentinas, Capiba dança com um guarda-chuvinha de frevo na mão.
Q13- Narrador: Mas os Batutas foi melhor, hein, Seu Capiba?
Cabisbaixo, Capiba fica com um semblante arrasado.
Capiba: Hã?!
Q14- Capiba eleva os dedos indicador e médio
Q15- Os lábios se fecham por trás de seu longo bigode.
Capiba: …
Q16- Narrador: Será que tinha sido mesmo? Alguém mais pensava assim?
Inflamado, envolto em chamas, Capiba ajeita o centro dos óculos com a ponta dos dedos.
Q17- O jurado da esquerda se levanta e aproxima do microfone. Um zumbido de microfonia irrompe pela multidão que fica paralisada e atenta.
Q18- Jurado da esquerda com o resultado nas mãos.
Jurado: Já temos uma decisão!
Q19- Capiba se reúne com os integrantes do Bloco do Madeira. Todos apreensivos e atentos ouvem o jurado.
Jurado: Foi muito difícil decidir, tudo estava muito bonito, mas o bloco campeão é…
Q20- Jurado: BATUTAS DE SÃO JOSÉ!!!
A rua se divide entre os desapontados do Madeira do Rosarinho à esquerda e os contentes do Batutas de São José à direita. Capiba está de braços cruzados e de olhar sério observa a festa dos batutas.
Q21- Narrador: Quem gosta de futebol sabe que as derrotas fazem parte do jogo, de vez em quando acontece.
Capiba abre os braços como se não compreendesse o fato. Um placar de 1x0 aparece ao seu lado esquerdo.
Q22- Indignado o malandro de chapéu retruca.
Malandro: Marmelada!
Q23- A baiana acompanha
Baiana: Roubado!
Q24- A loira de cabelos floridos faz um gesto de roubo com as duas mãos.
Q25- Narrador: Quem gosta de futebol sabe que perder faz parte, mas perder sendo roubado pelo juiz dá é raiva!
Mãos seguram um lápis e folheiam as notas 8 e 10 do Madeira. À direita, Capiba está de braços cruzados, dentes cerrados e pronuncia algo indecifrável.
Q26- narrador: Vai deixar assim, Capiba?
Irritado, Capiba corre.
Q27- Narrador: Um torcedor, talentoso, sortudo e motivado pela injustiça! Quem duvida desse potencial?
Capiba se senta de frente a um piano de cauda. Folhas de partituras voam pelos ares, e algumas outras folhas são amassadas em bolinhas de papel e jogadas ao chão. Em cima do piano, objetos de decoração e um gatinho branco que rola de costas agarrando uma bolinha de papel. Capiba usa pijama de camisa de manga longa com estampas de gatinhos e cueca samba canção de listras verticais. Apoia um lápis atrás de uma de suas orelhas.
Q28- Sorridente, Capiba segura as partituras em uma das mãos enquanto a outra mão segura o gatinho branco.
Capiba: Simbora ensaiar!
Gatinho branco: Miau!
Q29- Entre festins e serpentinas, as notas musicais passam por Capiba e o gatinho branco. Capiba orquestra com uma baqueta, bate palmas ritmadas, dança e com as mãos para o alto e os dedos dobrados, simula tocar um clarinete. Ao centro, uma banda com oito rapazes, performam com bumbo, trompete, corneta, pistão, saxofone e bateria.
Q30 a Q37 - A banda e seus integrantes que entregam suor e dedicação, é envolta pelas notas musicais da melodia. Toca o bumbo, o clarinete, o trombone, a tuba, o saxofone, o trompete e bateria.
Q38- O trompetista satisfeito abre um sorriso. Ele é um jovem rapaz esbelto, de pele clara e tem os cabelos cacheados loiros muito curtos. Usa camisa preta de gola polo da banda e óculos de lentes retangulares.
Trompetista: Acho que ficou bom, Seu Capiba!
Q39- Olhando para o alto, com o dedo indicador na boca e a outra mão dentro do bolso da calça, Capiba visualiza o cenário do Carnaval do Recife de 1963, com os jurados no palanque e os blocos desfilando.
Capiba: Ficou bom!
Q40- Perto do palanque dos jurados está um grupo de quatro baianas. Destaque para uma delas que faz o sinal de “banana” com as mãos, em direção aos jurados. Demais integrantes do Madeira do Rosarinho desfilam, destaque para a passista, com o estandarte do madeira do rosarinho, o malandro de chapéu, Capiba, a mulher de cabelos floridos e o cachorro palhaço. A canção Madeira do Rosarinho é entoada.
Música: Madeira do rosarinho vem à cidade… Trouxe o pessoal, sem fazer confusão. E não importava a decisão dos juízes, o madeira se sagrava o bloco campeão.
Q41- Narrador: Se a história foi bem essa, eu não sei… O que sabemos é que Capiba compôs um hino informal para os injustiçados, “queiram ou não queiram” é que dessas frases que rasgam o peito, força de quem não se sujeita.
Capiba abre um sorriso, com uma das mãos à cintura e a outra mão dentro do bolso da calça.
Narrador: Mas pode ter sido mais um frevo de um caba muito… Diz tu?
Fim.