Bruno Alves. Bennê Oliveira.
Notas introdutórias:
Brilhante é o primeiro capítulo deste HQ. A história é composta por 83 quadrinhos com ilustrações em preto e branco. Brilhante nos convida a conhecer o cangaceiro patuense Jesuíno Brilhante pelas vozes de Capiba e Ariano Suassuna. Em ordem de aparição, seguem a descrição das principais personagens:
Jesuíno (Cangaceiro): ele é um homem branco com cabelos longos e ondulados na altura dos ombros. Usa uma barba volumosa e bigode. Ele veste chapéu de couro e farda típicos do cangaço com um lenço amarrado no pescoço. Ele porta uma arma de fogo chamada de bacamarte pendurada em suas costas e um cinto de munição cruzado em seu peito.
Coronel Vasconcelos: é um homem branco, de baixa estatura e corpulento. Possui por volta de 70 anos. Seu rosto possui um formato quadrado com um nariz largo. Ele usa um bigode volumoso branco e tem cabelos lisos e grisalhos com duas entradas nas laterais. Ele veste uma camisa social, gravata e um colete abotoado por cima.
Ariano Suassuna: é um senhor de pele branca, alto e magro. Possui um rosto fino e alongado. É calvo, com pouquíssimos cabelos na parte de trás da cabeça.
Capiba: é um senhor de pele branca e estatura mediana. Possui um rosto quadrador e usa óculos de grau com uma armação preta, grossa e retangular. Ele é calvo e possui cabelos lisos nas laterais e atrás da cabeça.
Honorato Limão: é um homem negro, alto e com corpo másculo. Seu cabelo é curto e preto. Ele usa uma camisa de mangas longas e branca e uma calça até a altura dos joelhos. Calça nos pés uma sandália de tiras.
Jesuíno (Jovem): é um homem branco e jovem. É alto e possui um corpo forte. Tem cabelos longos e ondulados na altura dos ombros.
Página de título: Em um fundo preto com letras brancas se estende o título centralizado na página: “Brilhante. Bruno Alves. Bennê Oliveira”.
Folha de rosto:
Descrição da imagem de fundo: Um cangaceiro aparece parcialmente. Ao fundo, em pé, estão Capiba, à direita, com um violão, e Ariano Suassuna, à esquerda. Uma máscara de carnaval gigante ornada com plumas paira no céu, sobre os dois.
Bruno Alves é professor da UFRPE, pesquisador de quadrinhos e quadrinista. Licenciado em Educação Artística/Artes Plásticas e Mestre em Comunicação. Autor das hqs “Palavramundo” (Marca de Fantasia, 2021), homenagem a Paulo Freire, e “Isolado – Uma História da Quarentena”, aprovada pela Lei Aldir Blanc-PE em 2020. Foi proponente e um dos roteiristas do projeto “Ô Josué! Crônicas da Fome”, homenagem ao médico pernambucano Josué de Castro, aprovado pelo SIC-Recife 2021-2022 e indicado ao Prêmio HQMix 2024. Ministra oficinas e cursos sobre quadrinhos.
Bennê Oliveira é ilustradora e quadrinista recifense. É a criadora do Levemente insana, página no Instagram onde produz tirinhas sobre temas cotidianos, e muitas vezes autobiográficos. Tem como objetivo compartilhar a vida do periférico brasileiro, suas delícias e suas tragédias. Seu trabalho já fez parte de publicações de alcance nacional, como Mina de HQ, revista Continente e revista Piauí.
Q1- “Sertão do Rio Grande do Norte, 1877. Vila de Apodi, oeste potiguar.” Paisagem de um pequeno vilarejo. Em um dia ensolarado, algumas pessoas andam por uma praça. Outras estão sentadas em um banco e algumas vendem seus produtos dispostos em panos no chão em uma pequena feira. Ao centro está a igreja da vila com porta e janelas de madeira.
Q2- Um homem anda entre as pessoas. Ele carrega uma sacola de pano com remendos sobre seu ombro.
Q3- O homem coloca a mão em frente ao rosto, que está contra a luz do sol, e serra os olhos.
Q4- Assustado, o homem arregala os olhos.
Q5- Narrador: Brilhante. Roteiro: Bruno Alves. Desenhos: Bennê Oliveira.
Um grupo de seis homens a cavalo avançam em direção ao vilarejo e levantam poeira. Aquele logo à frente do bando é Jesuíno Brilhante. Seus rostos estão cobertos pela sombra que o sol projeta logo atrás.
Q6- O padre abre uma das portas da igreja em resposta a gritos do lado de fora. Ele é um homem branco, alto e magro. É calvo, com poucos cabelos na parte de trás da cabeça que são lisos. Ele veste uma batina longa e preta.
O padre pensa: “O que é essa zuada? Esse grito esbaforido? Parece uma trovoada, um bezerro, berrando dolorido”.
Um homem grita: “Padre Reis!!! Padre Reeiisss!”
Q7- O homem assustado se aproxima da igreja se arrastando pelo chão. Ele aponta para frente da igreja.
E diz “Cangaceiros!!!”
Ainda na porta da igreja o padre sorri, com as mãos entrelaçadas juntas ao corpo.
E responde: “Hôme de Deus, que besteira! Não tá vendo que no horizonte levantando aquela poeira é o bando do Brilhante?”
Q8- Jesuíno anda em direção a igreja ao lado de seu cavalo. Ele acena e sorri abertamente para o padre que está parado na porta da igreja. O padre também sorri e acena para ele.
Jesuíno diz: Padre Reis, meu amigo Como vai vossa mercê? Faz tempo que não tenho contigo, passei um tempo sem lhe ver.
Padre: Graças a Deus, tô bem ativo, e que bom que é poder ver você vivo!
Q9- Do alto vemos o padre e Jesuíno lado a lado. O padre entrelaça as mãos e olha sério para Jesuíno. Jesuíno sorri e tira seu chapéu.
Padre: Chegaram notícias que me deixaram aperreado. Disseram que uma volante tinha lhe atocaiado.
Jesuíno: Esses macacos das volante só conseguem me fazer rir. É um bando de irritante, mas me deixam escapulir.
Q10- Quatro cangaceiros do bando descarregam de uma carroceria alguns caixotes de madeira. Ao fundo, Jesuíno e o padre continuam conversando. Jesuíno aponta para seus homens.
Jesuíno: Mas atine e veja: trouxe mantimentos pro povo depois de uma peleja com o coronel Cabeça de ovo.
Padre: Seus feitos são gigantes, mas eles tão irritando umas pessoas grandes. Não descuide quando tiver circulando.
Q11- Jesuíno olha sorridente para o Padre com seu chapéu em mãos. Ao fundo o Padre estica suas mãos junto ao corpo apreensivo.
Jesuíno: Os poderosos têm ouro, prata e cobre, também violência, ódio e cobiça. Eu tenho sangue limpo e a alma nobre Pronto para combater injustiça
Padre: Dia desses o coronel Boanerges Riscou aqui com a volante procurando vosmicê entre as sebes com aquele jeito petulante.
Q12- Jesuíno abre um largo sorriso e inclina sua cabeça para trás. Ele coloca de volta seu chapéu sobre a cabeça e vira as costas para o padre.
Jesuíno: Não vão me pegar no susto, meu bando é muito astuto. Ele se acha muito robusto, mas não sabe diferenciar um arbusto.
Logo atrás o padre levanta uma das mãos com o dedo indicador apontado para cima.
Padre: Tem mais uma coisa: um dos Limões estava junto com aquela cara lisa me parecendo um tanto bestunto.
Q13- Jesuíno se volta para o padre. Com os olhos fechados, ele inclina seu corpo para frente como em uma reverência. Seu cavalo preto está parado logo atrás dele. Ao fundo estão algumas pequenas casinhas coladas umas às outras. O padre olha para ele sorrindo.
Jesuíno: Essa gente amaldiçoada que não vai sossegar nem desistir dessa toada enquanto não me matar.
Padre: Agradeço a boa ação pedindo que Deus lhe pague. Não está boa a situação com esse coronel de bague!
Q14- Ainda inclinado e agora com seu chapéu nas mãos em frente ao peito, Jesuíno acena com a mão direita.
Jesuíno: Sou Jesuíno Alves de Melo Calado, conhecido como Jesuíno Brilhante. Os poderosos têm me caçado. Mas sou duro como diamante. Sou o prego no sapato do nobre, sou o tiro que rasga a mata, sou a alegria da gente pobre que defendo com meu bacamarte de prata!
Q15- O bando de Jesuíno montado sobre seus cavalos se despedem do padre e seguem em direção oposta à igreja. O padre acena de volta para eles próximo a alguns caixotes no chão.
Jesuíno grita: Simbora, cambada!!!
Q16- O coronel Vasconcelos bate sua mão direita sobre a mesa com o punho cerrado. Um copo cheio de água titubeia sobre a mesa.
Coronel grita: Maldição!!!
Q17- O coronel se levanta da cadeira em frente a mesa com os braços erguidos e punhos cerrados. Ele esbraveja. Do outro lado da mesa está Venceslau, parado e em pé. Ele é um homem branco, magro e alto. Seu rosto é alongado com um queixo pontiagudo. Ele possui cabelos pretos, curtos e encaracolados e usa um bigode fino. Está vestido com um paletó e gravata.
Venceslau: Calma, coronel!!! Olhe o seu coração!! O doutor Pimenta falou que...
Coronel Vasconcelos: Calma uma ova!!! Calma uma ova!!!
Q18- Pelo alto vemos coronel Vasconcelos e Venceslau. O coronel volta a sua cadeira e descansa seus braços esticados sobre a mesa. Venceslau permanece de pé.
Coronel Vasconcelos: aquele demônio levou tudo do comboio, tudo!!!
Venceslau: Jesuíno parece um fantasma, aparece e some como...
Q19- Destaque para o coronel. Ele franze sua testa e sobrancelhas. Abre a boca e fecha novamente o punho em frente ao peito.
Coronel Vasconcelos: Fantasma? Fantasma? Imbecil, ele é bem vivo, de carne e osso e sangra! Ele não é um fantasma, vocês e toda a força policial é que são uns idiotas, uns bunda-moles!!!
Q20- O coronel coloca as mãos para apoiar a cabeça. A sua frente Venceslau permanece de pé com as mãos entrelaçadas junto ao corpo.
Coronel Vasconcelos: Quantos mortos?
Venceslau: Oito. Só o Vitorino sobreviveu. Jesuíno deixou ele vivo pra dar um recado.
Coronel Vasconcelos: Que recado?
Q21- O coronel, ainda sentado, apoia o braço sobre a mesa.
Venceslau: “Parem de roubar a comida do povo” foi o recado que ele mandou.
Coronel Vasconcelos: Mas que hipócrita! Foi ele que roubou os mantimentos enviados pelo governador!! Foi ele que deixou o povo com fome!
Q22- Destaque em Venceslau. Ele coloca as mãos no bolso e olha pensativo para o chão.
Venceslau em pensamento: Como se essa ajuda fosse ser dada de graça ao povo. Filho da puta!
Q23- O coronel levanta da cadeira e se apoia na mesa com as duas mãos. Venceslau permanece parado com as mãos nos bolsos.
Coronel Vasconcelos: Novidades sobre o buraco onde ele e o bando se escondem?
Venceslau: Ainda não. Mas estamos procurando, uma hora essa gruta vai ser achada.
Q24- O coronel ergue os braços para cima e fecha os punhos e esbraveja.
Coronel Vasconcelos: Aumente a recompensa! Triplique!!! Quero a cabeça desse demônio numa bandeja!!!
Venceslau vira de costas e segue em direção a uma porta. Ele olha para o coronel.
Venceslau: Sim, senhor! Vou providenciar isso! Com licença!
Q25- Destaque para o coronel. Ele volta a se sentar. Franze o cenho. Suas olheiras ficam evidentes. Ele olha para baixo pensativo.
Coronel Vasconcelos pensando: Filho de uma... e pensar que esse animal vem de uma família honrada de Patu.
Q26- Requadro com borda ondulada. Em um fundo preto surgem sorridentes Ariano Suassuna e Capiba. Capiba está tocando um acorde no violão. Algumas notas musicais contornam seu cantar. Eles declamam:
Ariano e Capiba: Meus senhores que aqui estão, vou cantar meu desatino! A canção do cangaceiro que se chamou Jesuíno!
Q27- Em uma noite de lua minguante no meio da vegetação rasteira da caatinga, Jesuíno, paramentado com os trajes do cangaço, levanta seu bacamarte próximo ao rosto. Ele aponta sua arma para frente, concentrado. Ao fundo, Ariano e Capiba em pé continuam a entoar sua canção.
Ariano e Capiba: Seu bacamarte de prata e o luar do seu destino!
Q28- Destaque para Ariano e Capiba em um requadro com bordas onduladas. Ariano ergue as mãos. Capiba continua a dedilhar o violão. Notas musicais contornam os dois. Sorridentes, eles cantam.
Ariano e Capiba: De guarda-peito e perneiras, chapéu de couro e gibão, montado em seu cavalo que atendia por Zelação, Jesuíno corria veloz por todo sertão com sua armadura de couro cantando essa canção:
Q29- Parte inferior da página. Jesuíno montando em seu cavalo empinado. Jesuíno levanta o bacamarte com uma das mãos acima da cabeça.
Página: Uma cortina contorna a borda superior da página. Ao fundo, um céu noturno e estrelado. Jesuíno está no centro, montando em seu cavalo com as mãos segurando firme as rédeas. Ele sorri.
Jesuíno: Eu tenho um espelho de cristal, foi Jesus Cristo que limpou ele do pó, mas lá um dia a terra se alumiam, ao meio dia se espalha a luz do sol.
Na parte inferior da página, uma nuvem branca se estende. Os bustos de Ariano e Capiba aparecem, cada um em um quadrinho emoldurado. Ariano sorri sem mostrar os dentes e Capiba abre um largo sorriso. Eles olham para cima em direção a Jesuíno.
Q30- Um garoto caminha pela vila de Patu. É jovem esguio de pele branca. Seu cabelo é curto e encaracolado. Ele veste uma camisa e uma calça que vai até os joelhos. No fundo, duas casinhas simples.
Alguém: Ei, seu amarelo!
Q31- Em frente ao garoto surgem dois homens. Eles são homens negros, com corpo forte. Tem os cabelos pretos e curtos. Eles vestem uma camisa de mangas longas e branca e uma calça até a altura dos joelhos. E calçam nos pés uma sandália de tiras. O primeiro deles é o mais alto. Ele cerra os punhos em direção ao jovem. O garoto para, assustado.
Honorato Limão: Cadê a cabra que você roubou?
Outro homem: É, cadê, seu ladrão de merda!
Lucas: Cabra? Vocês tão falando daquela cabra marrom? Ela é minha!
Q32- Em detalhe os dois homens. Eles franzem o cenho. Honorato Limão levanta o punho cerrado.
Honorato Limão: Cê vai ver o que um ladrãozinho como você merece!
Q33- Destaque para o rosto de Lucas amedrontado. Ele arregala os olhos. Uma gota de suor desce pelo seu rosto.
Q34- Uma casa de sítio se ergue ao lado de uma árvore alta e de copa robusta. A casa tem uma escadaria que dá acesso a sua área externa. O telhado é sustentado por algumas vigas de madeira.
Q35- Do lado externo da casa estão em pé Jesuíno, agora jovem, e sua mãe. Ela coloca as mãos sobre a boca. Jesuíno se apoia com a mão em uma das vigas de sua casa.
Jesuíno: Lucas!! O que aconteceu?
Mãe: Meu filho!!!
Dois homens estão logo abaixo. Eles carregam Lucas que apoia seus braços nos ombros dos dois rapazes.
Um dos homens: O Honorato Limão bateu nele por causa de uma cabra roubada!
Segundo homem: Mas Lucas falou que a cabra era dele mesmo.
Q36- Destaque para o rosto de Jesuíno. Ele franze o cenho e entorta a boca. Seus ombros estão contraídos.
Jesuíno: Onde esse cabra tá???
Q37- Em um bar, Honorato Limão e seu parceiro estão encostados sobre um balcão. Cada um deles segura um copo na mão. O homem olha para Honorato e arqueia uma das sobrancelhas. Ao fundo, está a sombra do corpo de Jesuíno na porta do estabelecimento.
Homem: Ih, olha quem chegou …
Jesuíno: Seu cabra safado, foi você que bateu no Lucas?
Q38- Destaque para o rosto de Honorato. Ele sorri e franze as sobrancelhas.
Honorato: Foi e daí? Ladrão merece apanhar mesmo!
Q39- Jesuíno golpeia o rosto de Honorato com um soco.
Q40- Honorato salta da cadeira e golpeia Jesuíno com um soco no queixo.
Q41- Jesuíno cai para trás de costas no chão. Honorato está por cima dele e tenta imobilizá-lo. Jesuíno saca uma faca.
Q42- Jesuíno desfere um golpe de faca contra o pescoço de Honorato. O sangue jorra. Honorato arregala os olhos e apoia uma das mãos no chão.
Q43- Em um requadro com bordas onduladas surgem Ariano e Capiba. Uma cortina teatral contorna o quadrinho. Ao fundo, um céu noturno. Ariano estende os braços com as palmas das mãos abertas para cima. Capiba olha para seu violão cabisbaixo.
Ariano e Capiba cantam: Um dia um fazendeiro espancou o seu irmão. Jesuíno vingou a ofensa com um punhal na mão. Começou a cavalgar seu destino sempre cantando esta canção: “Eu tenho um Espelho de Cristal, foi Jesus Cristo que limpou ele do pó, mas lá um dia a terra se alumiam, ao meio-dia se espalha a luz do Sol!”
Q44- Jesuíno sai correndo da mercearia com as roupas manchadas de sangue. Na porta, o parceiro de Honorato ergue uma das mãos e esbraveja.
Q45- Jesuíno está montado em seu cavalo. Ao fundo está sua casa no sítio de sua família. Ele olha para trás com uma expressão triste.
Q46- Jesuíno, paramentado com os trajes do cangaço, galopa em seu cavalo por entre a vegetação típica da caatinga sertaneja. Algumas árvores de porte médio estão sem as folhas. As gramíneas secas e rasteiras abrem espaço para o solo raso e pedregoso do semiárido. Alguns mandacarus cheios e espinhosos também se misturam por entre a paisagem.
Q47- Na calçada de uma rua, uma repórter entrevista uma senhora. A senhora tem pele clara e baixa estatura. Ela tem cabelos brancos e lisos presos em um coque baixo. Usa um vestido longo e estampado e carrega uma bolsa grande em seu ombro. Está calçada com uma chinela.
Repórter: A senhora já ouviu falar do cangaceiro Jesuíno Brilhante?
Senhora: Vi uma reportagem uma vez na televisão sobre ele.
Repórter: E qual sua opinião sobre Jesuíno…
Q48- Destaque para o rosto da senhora. Ela tem linhas de expressão e rugas evidentes no rosto. O microfone está posicionado à sua frente.
Senhora: Um bandido! Matou um homem só porque ele bateu no irmão dele? Precisava matar? Era só bater de volta! Aí depois entrou pra bandidagem por causa disso? Alma sebosa só precisa de uma desculpa, né?
Q49- Alguns entrevistados dão suas respostas. Da esquerda para direita, são eles:
Um jovem de pele clara e boné na cabeça diz: Jesuíno Brilhante? Sim! Foi o cangaceiro gentil que viveu aqui no Rio Grande do Norte e que enfrentou os ricos para ajudar os pobres, tipo Robin Hood. Maior figura! Tô pensando em fazer uma HQ sobre ele!
Uma mulher branca e alta. Ela tem cabelos longos, lisos e pretos. Usa um óculos de grau de armação final e está vestida com roupas sociais. Está fumando um cigarro.
Mulher: Nem herói, nem bandido, apenas um homem do seu tempo.
Uma senhora negra. Ela usa um vestido longo e estampado. Está segurando um celular próximo ao rosto.
Senhora: Não sei se foi herói, tava mais pra bandido, roubava e matava, herói não faz isso, mas ele defendia as mulheres, minha bisa conheceu uma mulher chamada Maria Umbelina que viveu na época de Jesuíno e ela dizia que no cangaço dele honra de moça e mulher pobre tinha defesa.
Um homem branco com olheiras cansadas e cabelos ondulados um pouco bagunçados.
Homem: Vi um filme dele uma vez. Muito ruim, por sinal. Tem na internet.
Um homem branco, jovem, de corpo másculo e alto.
Homem: Sei não. Conheço Lampião, serve? Vai passar em qual canal essa matéria?
Um senhor de pele clara. Ele tem cabelos brancos e segura seus óculos de grau nas mãos. Está vestido com uma camisa polo ensacada por dentro da calça. Usa um cinto e sapatos fechados.
Senhor: Foi um homem perseguido pelos coronéis. Soube que ajudou muita gente e que não gostava de matar, era um gentleman comparando com Lampião e Corisco.
Q50- “Fazenda Logradouro, município de Campo Grande, oeste do Rio Grande do Norte.” Entrada de uma fazenda. A porteira está aberta. Montados em seus cavalos, Jesuíno e outros três cangaceiros passam pela porteira. Eles seguem em um caminho que dá para a varanda de uma grande casa térrea. Ao redor, coqueiros altos contornam a propriedade.
Q51- Do alto vemos um homem em pé na varanda da casa e apoiado em um parapeito. Os cangaceiros se aproximam da varanda. Jesuíno está mais à frente.
Jesuíno: Salve, sr. Manuel Pimenta!
Manuel Pimenta: O que o traz aqui na minha fazenda? Você não é bem-vindo!
Q52- Destaque para Jesuíno. Ele sorri.
Jesuíno: O senhor sabe que lhe tenho muita estima, sr. Manuel. O senhor é um homem justo, uma pessoa do bem. Não estou aqui para causar problema. Venho só lhe fazer um pedido.
Q53- Manuel Pimenta coloca as duas mãos sobre o parapeito. Ele é um senhor moreno, calvo, com um bigode cheio e branco. Ele franze o cenho desconfiado.
Manuel Pimenta: Um pedido. E o que seria esse pedido?
Jesuíno: Eu e meu bando estamos precisando de alguns recursos para se manter e conseguir chegar ao nosso destino. Coisa pouca, que não vai lhe fazer falta, alguns merrêis, uma vaca e um cavalo …
Q54- Ainda apoiado no parapeito, de frente para Jesuíno, Manuel fica sério.
Manuel Pimenta: Não. Se você quiser tomar o dinheiro, a vaca e o cavalo, que tome! Mas com minhas mãos não lhe dou!
Q55- Destaque para Jesuíno. Ele se inclina para frente enraivecido.
Jesuíno: Não sou ladrão, sr. Manuel. NÃO. SOU. LADRÃO!
Q56- Montado em seu cavalo, Jesuíno dá as costas para Manuel.
Jesuíno: Passar bem.
Q57- O bando cavalga pelo sertão. Jesuíno está acompanhado de dois homens. Ele olha para trás.
Manuel Peri: O senhor tá bem, capitão?
Jesuíno: Não gosto que me chamem de ladrão. Eu não sou ladrão. O que eu faço é para ajudar os pobres que sofrem com a seca e que são injustiçados pelos coronéis!
Q58- Manuel Peri está ao lado de Jesuíno. Ele é um homem moreno, de cabelos pretos e cacheados na altura dos ombros.
Manuel Peri: O fazendeiro Manuel Pimenta não é um coronel também?
Jesuíno: Não. Ele é um homem bom, não é como os outros. Por isso deixei passar. Ele tá inflamado pelos jornais e pelo capitão Mendonça, que falam mal de mim por aí. O Preto Limão tem culpa no cartório também.
Q59- O bando, agora visto de costas, segue cavalgando pela paisagem do semiárido. Por um caminho cercado de cactáceas e pequenas árvores.
Jesuíno: Mas ele vai pagar caro! Todos os Limões vão pagar caro!
Manuel Peri: Para onde agora, capitão?
Jesuíno: Vamo pra Casa de Pedra. Preciso tirar a limpo uma suspeita com o Zé.
Manuel Peri: Eu escutei o zum-zum-zum. E se for verdade, capitão?
Jesuíno: Ele pode encomendar a alma ao demo. Cabra que desonra mulher não merece viver, ainda mais se for do meu bando.
Q60- Entrada da Casa de Pedra a noite. A casa é uma gruta formada por enormes pedras com uma fenda no meio que dá passagem para o interior da gruta. Pela fenda, uma luz irradia de dentro da gruta.
Alguém dentro da casa clama em pensamento: “Valhei-me Nossa Senhora da Apresentação! Me proteja de todo o mal! Me dê forças para enfrentar o meu destino! ”
Q61- Dentro da Casa de Pedra, três cangaceiros sentados conversam. Estão sem os seus chapéus e armas. Ao fundo, um outro homem também está sentado. Ele segura com um dos braços suas pernas contra o peito. Está de cabeça baixa.
Cangaceiro 1: O que tem o Zé? Passou o dia mufino...
Cangaceiro 2: Por causa da história dele com a moça. Parece que é verdade, visse?
Cangaceiro 3: De hoje ele não passa. Quem mandou desobedecer regra do capitão? Bicho leso!
Q62- Zé, ainda sentado, coloca a cabeça entre as pernas. Ele aperta sua testa com as duas mãos. A sombra de Zé é projetada na parede pela luz da fogueira acesa à frente dele.
Algum dos cangaceiros: De hoje ele não passa.
Q63- Em um requadro com bordas onduladas surgem Ariano e Capiba. Eles cantam:
Ariano e Cabiba: Ver a terra repartida com o povo do sertão era o sonho de Jesuíno.Para isso ele galopava com seu bacamarte na mão, cada vez mais perto do tropel do seu destino.
Q64- “Brejo da Cruz, sertão da Paraíba. Dezembro de 1879.” De dia, Jesuíno segue com seu bando a cavalo por entre a vegetação. Ele segura seu bacamarte e canta.
Jesuíno: Eu tenho um Espelho de Cristal, foi Jesus Cristo que limpou ele do pó. Mas lá um dia a terra se alumia, ao meio dia se espalha a luz do Sol!
Q65- No escritório do coronel Vasconcelos entram dois homens negros vestidos com uniforme de soldado. O coronel se levanta da cadeira e apoia as mãos na mesa de madeira à sua frente.
Coronel Vasconcelos: O que o senhor está me dizendo é verdade, capitão? Tem certeza?
Capitão Mendonça: Certeza certíssima!! Meu informante soube onde o bando vai passar depois de amanhã. Já organizei a tropa e vamos nos amoitar na redondeza e pegar esse demônio de surpresa.
Preto Limão: Espero que a promessa feita a mim esteja de pé, capitão! Eu quero ser o homem que vai mandar aquele amarelo para o inferno!
Q66- Manuel Peri se aproxima de Jesuíno que cavalga a frente do bando.
Manuel Peri: Capitão, já era para termos encontrado esse comboio. A informação é de confiança?
Jesuíno: Sim. Ele nunca me deu informação errada, Manuel. Algo deve ter atrasado os cabras, devem ter parado para descansar.
Q67- Em detalhe o de Manuel Peri. Ele franze as sobrancelhas em uma expressão preocupada.
Manuel Peri: Sei não, capitão, mas eu tenho um mau pressentimento sobre isso…
Q68- Tristes, Ariano e Capiba continuam sua canção.
Ariano e Cabiba: Mas os coroné se juntaram com o governo da nação, armaram uma tocaia de repente, um clarão! Jesuíno morre à traição, mas ainda vive nos sonhos de todo povo do sertão.
Q69- Um soldado está agachado em cima de uma pedra. Ele segura um fuzil próximo ao rosto. Está com um de seus braços apoiado na coxa e mira a arma em direção ao seu alvo.
Q70- O bando de Jesuíno se aproxima.
Q71- Uma bala é disparada. Bang. Bang.
Q72- Os tiros vão em direção ao bando de Jesuíno. Bang, bang, bang. Alguns homens são atingidos e caem no chão. Um homem no fundo foge a cavalo enquanto outros atiram para revidar. Jesuíno está montado em seu cavalo que empina. Ele ergue seu bacamarte e segura firme em sua cela.
Q73- Jesuíno cai. Ele é atingido por um tiro no peito e outro no braço.
Q74- Preto Limão ergue os braços segurando seu fuzil em uma das mãos. Ele sorri.
Q75- Do alto, vemos os homens do bando de Jesuíno e dois cavalos estirados ao chão. Em cima de uma pedra, ao lado esquerdo, os soldados da volante comemoram. Os cangaceiros sobreviventes correm em meio a vegetação na direção contrária.
Q76- Por dentre uma densa vegetação, um grupo de pessoas se reúnem em frente a uma cruz fincada no solo. Manuel Peri está logo à frente.
Manuel Peri: Nessas terras do sertão descansa o nosso comandante que, montando Zelação, enfrentou muita volante.
Q77- Foco no rosto do grupo. Alguns estão cabisbaixos. Um homem chora e o outro entrelaça as mãos em prece. No centro, Manuel, agora sem sua farda, fecha os olhos e chora.
Manuel Peri: Com seu bacamarte de prata, sempre esteve vigilante no meio do clarão da mata, sem medo em seu semblante. Hoje nosso Jesuíno cavalga no firmamento, mas sempre que um nordestino precisar de salvação, basta fazer um chamamento que ele e Zelação chegarão para o salvamento.
Q78- Destaque para a cova de Jesuíno. Sobre a cruz de madeira está o seu chapéu de cangaceiro. O seu cinto de munição e espada repousam sobre o chão.
Q77- Ariano e Capiba estão de pé em um palco. As cortinas teatrais estão abertas. Ao fundo, o cenário revela a vegetação da caatinga. Notas musicais perpassam sobre eles. Ariano estende os braços e toca o ombro da Capiba. Eles cantam.
Ariano e Capiba: Mas o povo não esquece, sonha com ele o sertão e se diz ainda hoje, em qualquer ocasião, se alguém sofre uma injustiça nas terras do sertão, ao longe se ouvem tiros e o tropel de Zelação, e Jesuíno Brilhante que chega para ajudar.
Q78- “Arredores da cidade de Patu, Rio Grande do Norte. 2024.”
Está de noite. Dois homens estão no meio de uma densa vegetação. Vemos apenas as sombras de seus corpos. Um deles avança sobre o outro. Ele é o mais alto e corpulento. O outro se encolhe.
Q79- O homem mais alto puxa o outro pela camisa. Ele é um homem branco e jovem com o rosto enraivecido. O outro homem é um senhor. Continua encolhido.
Homem jovem: Eu te falei, seu merda, que se você não me vendesse sua terrinha a coisa ia ficar feia, não falei? Você não sabe com quem está mexendo, eu tenho amigos, já falei com meus vereadores!
Senhor: Dr. Vasconcelos, por favor, eu só tenho aquele pedacinho de terra, é meu sustento, se eu perder como vou...
Eles se calam. Ao fundo, um barulho surge. O trote ritmado de um cavalo corta o silêncio.
Q80- Os dois homens olham para os arredores com os olhos arregalados.
Homem: Que barulho é esse? Peraí, aquilo lá longe é um cavalo?
Senhor: Valha-me Nossa Senhora da Apresentação!!
O barulho do trote de um cavalo continua a se aproximar.
Q81- O senhor se ajoelha no chão, abaixa a cabeça e coloca as mãos em prece. O homem mais jovem, permanece em pé. Ele inclina seu corpo para trás e coloca as mãos em frente ao corpo. Ele abre a boca e arregala os olhos assustado. O barulho do estralar dos cascos do cavalo no chão se aproxima ainda mais.
Q82- Ariano abraça Capiba. Sorridentes, eles continuam sua canção.
Ariano e Capiba: O cangaceiro galante surge feito aparição reparando a injustiça com seu bacamarte na mão. Depois se afasta contente cantando esta canção:
Q83- O homem mais jovem cai aos prantos com a boca aberta e escancarada.
Jesuíno: Eu tenho um espelho de cristal, foi Jesus Cristo que limpou ele do pó, mas lá um dia a terra se alumia, ao meio dia se espalha a luz do sol.
Fim.